terça-feira, 9 de março de 2021

Reflexão Pandêmica

 O texto abaixo, tido como de George Carlin, na realidade é de um pastor americano. O que importou para o pastor foi que a mensagem atrelada a um nome de peso, em sua primeira leitura, foi valorizada e lida. Se fosse divulgada pelo seu nome ninguém daria muita atenção.

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Nós bebemos demais, fumamos demais, gastamos sem critérios, dirigimos rápido demais, ficamos acordados até muito mais tarde, acordamos muito cansados, lemos muito pouco, assistimos TV demais e rezamos raramente.

Multiplicamos nossos bens, mas reduzimos nossos valores. Nós falamos demais, amamos raramente, odiamos frequentemente. Aprendemos a sobreviver, mas não a viver; adicionamos anos à nossa vida e não vida aos nossos anos.

Fomos e voltamos à Lua, mas temos dificuldade em cruzar a rua e encontrar um novo vizinho. Conquistamos o espaço, mas não o nosso próprio.

Fizemos muitas coisas maiores, mas pouquíssimas melhores.

Limpamos o ar, mas poluímos a alma; dominamos o átomo, mas não nosso preconceito; escrevemos mais, mas aprendemos menos; planejamos mais, mas realizamos menos.

Aprendemos a nos apressar e não, a esperar.

Construímos mais computadores para armazenar mais informação, produzir mais cópias do que nunca, mas nos comunicamos menos.

Estamos na era do fast food e da digestão lenta; do homem grande de caráter pequeno; lucros acentuados e relações vazias.

Essa é a era de dois empregos, vários divórcios, casas chiques e lares despedaçados.

Essa é a era das viagens rápidas, fraldas e moral descartáveis, das rapidinhas, dos cérebros ocos e das pílulas "mágicas".

Um momento de muita coisa na vitrine e muito pouco na dispensa.

Lembre-se de passar tempo com as pessoas que ama, pois elas não estarão por aqui para sempre. Por isso, valorize o que você tem e as pessoas que estão ao seu lado.

 

 

segunda-feira, 1 de março de 2021

Extrato do novo livro - "7 Pessoas"

 


Certa vez, em uma reunião de família, ouviu de seu tio Carlos a seguinte estória.

 “Eu retornava de São Paulo à Brasília. Brasília estava em estado de sítio por causa da votação da Emenda Dante de Oliveira, Diretas Já. No avião que eu estava também estavam o Lula e o Genoíno. Lula de perna quebrada. 

Desci atrás deles. Eu, o Lula e o Genoíno. Soldados organizavam a fila única para identificação. Como se acabássemos de chegar a um país estrangeiro. Do avião até o momento em que Genoíno era o próximo da fila a identificar-se fui ouvindo a conversa dos dois e dando uma interagida de vez em quando. Foi hilário. 

Os três rindo e fazendo piadas do acontecimento. Como ficamos “amigos de infância”, na saída do aeroporto os dois se despediram e foram embora. Minha mulher presenciou a cena da despedida e veio com perguntas. Falei com orgulho que eram meus amigos! 

Quando retornei à São Paulo, certa vez na Bienal do Livro encontrei Genoíno liderando uma passeata de funcionários de editoras. Como foi em menos de um ano do nosso encontro histórico ele me reconheceu. Trocamos uma conversa fiada lembrando daquele dia. Em seguida voltei para o estande que eu estava selecionando livros e o Zé seguiu em sua passeata”.

 A partir dessa reunião mostrou interesse em acompanhar a trajetória política e a vida de Lula. Mais tarde, já em 2002, Lula era o candidato mais forte em ganhar as eleições após várias tentativas mal sucedidas.

 


sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Partidas e Chegadas! Reflexões de Victor Hugo - Fragmentos!

 


Quando observamos, da praia, um veleiro a afastar-se da costa, navegando mar adentro, impelido pela brisa matinal, estamos diante de um espetáculo de beleza rara.

O barco, impulsionado pela força dos ventos, vai ganhando o mar azul e nos parece cada vez menor.

Não demora muito e só podemos contemplar um pequeno ponto branco na linha remota e indecisa, onde o mar e o céu se encontram.

Quem observa o veleiro sumir na linha do horizonte, certamente exclamará: "já se foi". Terá sumido? Evaporado? Não, certamente. Apenas o perdemos de vista. 

O barco continua do mesmo tamanho e com a mesma capacidade que tinha quando estava próximo de nós. Continua tão capaz quanto antes de levar ao porto de destino as cargas recebidas. 

O veleiro não evaporou, apenas não o podemos mais ver. Mas ele continua o mesmo. E talvez, no exato instante em que alguém diz:  "já se foi", haverá outras vozes, mais além, a afirmar: "lá vem o veleiro".

A vida é feita de partidas e chegadas. De idas e vindas. Assim, o que para uns parece ser a partida, para outros é a chegada.

 

 

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Sentado no café de tantos encontros, André escrevia mais uma carta ao seu amigo Pedro!

 


Madrid, 7 de dezembro de 83

 Pedrinho querido,

 Estou nesse início de noite naquele mesmo café em Madrid, perto da Plaza Mayor, quando nos encontramos em 74. Estou bebendo um delicioso Rioja Tinto. Pois é, aqui estou sozinho, fazendo uma espécie de revisão espiritual. Acabo de chegar de Paris. Os editores me fizeram uma homenagem pelo lançamento em francês do meu último livro, “Outono do Descontentamento“. Sempre gostei dessa estação. Minha estação favorita. No outono as pessoas deviam se comportar como as folhas. Caindo e se renovando. No outono as almas trocam de posição. A renovação da vida acontece no outono. Do descontentamento nasce a rebeldia. Da rebeldia nascem as mudanças. 

A festa foi no último dia 29 de novembro. Sabe quem estava lá e conversamos muito? O Ives e a Simone. Também estava o Danny, le rouge, que ficou famoso em 68. O Fernando Gabeira contou de novo aquela estória de condutor de metrô em Estocolmo quando estava exilado, lembra? Quantas cartas já ti enviei. Foram tantas que nem sei ao certo. . Quando me sinto só lembro-me de ti, meu amigo. E a sua trilogia, está saindo do pensamento e entrando no papel? 

Em um dos nossos últimos encontros entramos nesse café e resolvemos pedir uma garrafa de vinho. O garçom abriu uma, mais uma, e mais uma. Tomamos umas tantas garrafas e fumamos não sei quantos cigarros. Quando os maços acabaram, o garçom trouxe Gitanes. Só tinha Gitanes naquela noite. Não conversamos em nenhum momento sequer. Você com seus pensamentos e eu com os meus. Lá pela quase madrugada, pagamos e cada um seguiu rumos diferentes logo na saída do café. Nem um simples até logo foi dito. Foi o encontro mais honesto que já tive! 

A sensação de utilidade em relação ao próprio país me parece diferente entre um europeu e um latino americano. Em um encontro que tive, anos atrás, com o Mário Vargas Llosa, ele comentou dessa mania que a Europa tem de achar que são nossos eternos protetores. Essa atitude impede nosso amadurecimento. 

Pedrinho, estamos em 83. Lá se foram quase vinte anos. Nossos guerrilheiros de outrora estão envelhecidos e engajados na luta pela própria sobrevivência. Sem compromisso com o passado de lutas e ideais, olhando-se nos espelhos de hotéis baratos e incomodando-se com o que veem. 

Quão românticos fomos. Estou assustado com o rumo das coisas. Até Shakespeare me assusta! Todos os livros que escrevi falam de lutas, ideias, vidas de outono. Meus personagens nada mais podem fazer. Boris, Karina, Pablo, Paco, Vicente, Ivan e tantos outros emudecem dentro das páginas. Grupos revolucionários viraram quadrilhas. Nessas horas lembro-me do Ettore Scala e seu filme “Nós que nos amávamos tanto“.  Somos a própria frase de um dos personagens, “nós pensávamos que mudaríamos o mundo, mas foi o mundo que nos mudou”.

Há, lembra-se de uma estória bem antiga, quando na segunda guerra eu era correspondente em Londres, que eu lhe contei. A do jornalista colombiano? Uns colegas jornalistas me contaram que o safado era mesmo espião! A senhora austríaca com quem falava sempre pelo rádio, era um dos principais assessores do Hitler. 

Imagina que um dia desses, li uma crônica do Roberto Drumond, em um jornal de São Paulo, que dizia mais ou menos assim em seu final, “Lamento muito ter que informar que neste exato momento, enquanto Elba Ramalho canta na loja de discos e o Brasil parece feliz, uma moça brasileira acaba de morrer, deitada na perna do pai, mas se sentindo uma flor, uma rara flor do Brasil". Ao mesmo tempo bonito e triste. 

Quando do meu silêncio solidificarei uma nuvem e de lá viverei minha eternidade, flutuando por esse vasto mundo à procura de novos personagens, novas revoluções, novos ideais. Estou acabando meu vinho e agora vou para o hotel ensaiar mais uma crônica. Escrevo crônicas políticas para um jornal de São Paulo.

 Um abraço afetuoso de seu sempre amigo André .

 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Sentimento Urbano

 

Nada sei dos rumores,

Apenas os sinto rasgarem o silêncio das gargantas profanas,

Ante o quadro do velho barão, lembrando as viagens que nunca fiz

e dos castelos de areia onde um dia fui rei,

bebo o último gole de uma taça vazia,

Tambores,

Indissolúveis e estáveis marcam o compasso das horas,

Ponteiros, sorrateiros buscam a liberdade fugindo de seus relógios,

Becos, quem me segura na sombra que eu faço ?

Anima Mea !!

As datas da pedra sempre foram muito próximas,

O véu da noiva repousa nas escadarias da igreja, rasgado,

Estranhos são os poderes, fitando corpos tremulos de frio,

Emoção. Coração. Lápide.

No tapete de folhas turvas sinto tua presença,

De quando tua respiração me esquentava a alma,

Amores proibidos, finitude de vida, essência,

Palavras de ordem, ordem das coisas,

Trens urbanos açoitam  trilhos incandescentes,

Almas silenciosas repousam nas asas do avião,

Olham para dentro,

Chamam por alguém,

Latas de cerveja rolam pelas plataformas do metro,

Nada sei,

Chego,

Subo,

Me acomodo,

Lá estarei,

Lá ficarei ,

Poesia e morte,

Morte e poesia,

Nuvens brancas,

Brancas e sólidas,

Morada do meu coração ...,

Nada sei, mas lá estarei,

Lá ficarei